O CHORO DE PURURU
Ana Trajano
Cansado, o Rio Pururu seguia seu caminho desde a nascente, numa montanha distante, passando por várias cidades, até chegar no mar. Ele já havia sido limpo um dia e ajudado a alimentar a população com os peixes que produzia.
Agora, era um rio quase morto, por onde corria um fio d’água muito sujo, e nenhum peixe era mais visto. A poluição tinha acabado com o Pururu. Ela era provocada por produtos químicos jogados em seu leito por algumas indústrias. Mas não apenas por isso. As populações das cidades vizinhas jogavam lixo em suas margens, eletrodomésticos quebrados, e, até, animais mortos.
![]() |
| Imagem: Diário de Pernambuco |
E o Pururu foi adoecendo como um corpo cheio de feridas que não são tratadas. Aninha morava em Vista Alegre, um pequeno povoado próximo ao rio. Ela gostava muito de ir todas as tardes com a amiga Tetê brincar nos pedregulhos que ficavam em suas margens. Mas naquele dia, adoentada, Tetê não pode acompanhá-la e ela foi sozinha.
Sentada sobre a pedra, Aninha observava a água escura do Pururu, que se assemelhava ao óleo queimado, retirado do carro do pai. De repente, em um canto, a água formou um redemoinho e dentro dele apareceu um rosto, desenhado pela própria água. Era enorme e muito bonito, mas triste.
Assustada, ela quis correr, mas a criatura tratou de acalmá-la.
-Não tenha medo! Eu não estou aqui para assustá-la!- disse aquela face feita de água.
-Quem é você?- indagou a menina.
-Eu sou Pururu.
-Rios não falam!-retrucou Aninha.
-Você que pensa! Não estou falando com você?
Aninha podia ver claramente lágrimas cristalinas, que contrastavam com a água escura que corria em seu leito, escorrerem de seus olhos. Sua fisionomia era de dor. Pobrezinho! Se ao menos pudesse lhe fazer um carinho!... Mas acariciar o quê? A água?
-O que você tem? Por que chora assim?- perguntou ela.
-Porque meu corpo dói com tanto desprezo, com tanto mau trato. Veja: acabaram toda a minha beleza. Contaminaram meu sangue, que virou apenas uma lama negra.
Sangue? Mas como? Rios não têm sangue! Esse Pururu estava mesmo surpreendendo. Bom mesmo é perguntar e ouvir sua resposta.
-Você pode, por favor, explicar!- pediu Aninha.
-Os rios são como veias por onde corre o sangue, ou a água que alimenta a Terra. A Terra vive sem água? -indagou Pururu.
-Não!- respondeu a menina.
-Pois é! O Planeta não vive sem água, como um corpo não vive sem o sangue, e se este é contaminado, adoece seu dono. Entende agora a minha tristeza? Sou mais uma veia doente a contaminar o corpo da minha mãe, a Terra.
Aninha colocou a mão no queixo, pensou, pensou e chegou à conclusão: fazia sentido, sim! Depois, puxou conversa.
-Sabe, eu entendo você, sua dor. Meu avô conta que você já foi um rio muito bonito, onde ele tomava banho com uma reca de meninos e pescava peixinhos dourados, lembrou.
-Sim! Os lambaris! Eram tantos!... As crianças faziam a maior algazarra. Nos domingos, famílias inteiras vinham tomar banho, fazer piquenique em minhas margens, se divertirem. Era tão bom!- disse Pururu, cheio de saudade.
Aninha olhou à sua volta e ficou imaginando o rio há algumas décadas atrás. Como devia ser lindo! Agora só via lixo doméstico, garrafas de refrigerante, restos de material de construção, casas erguidas em suas margens e aquele fio d’água, escuro e mau cheiroso, sem pressa nenhuma de chegar ao seu destino.
O que teria acontecido, afinal, para que o rio chegasse aquele estado? Esta era a pergunta que não saía da cabeça da, menina e ela só encontrava uma resposta: falta de amor e respeito para com o planeta em que vivemos. As pessoas veem a natureza como uma coisa, que serve apenas para ser explorada.
-Ah, se todos pudessem ver, assim como eu, a face de Pururu! Talvez tudo fosse diferente!-pensou.
Já estava ficando tarde e Aninha decidiu se despedir. Nuvens escuras indicavam tempestade. Era bom ir embora antes que a chuva começasse. Pururu ainda chorava, ela chorou com ele e saiu se perguntando se algum dia o rio voltaria a ser o que era antes.
É cá e lá E lá e cá
É cá e lá E lá e cá
Ping-pong Pong-ping
CIÊNCIAAna Trajano
-Mamãe, você sabiaque PLATÃOnão é mais planeta?-Não, filhinha!E PLUTÃOdeixou de ser filósofo?
A vaca Azulzinha
Ana Trajano
Em que pasto come
minha vaca Azulzinha?
Será que tem fome
a sua alminha?
Será que amamenta
bezerros anjinhos?
E o leite que sobra
dá aos gatinhos?
Será que faz mu....u...u...u...
procurando a filhinha,
e se não a encontra
faz grande alarde,
chamando-a para o curral
nos finais de tarde?
Era assim que fazia
a minha vaquinha!
(Do meu livro de poesia infantil "A Arca)
| Minha filha, Eduarda Trajano, com dois anos |
Ana Trajano
(Para Eduarda Trajano)
Assim tão branquinha
de olhos azuis,
cabelos ao vento
e o pés sempre nus;
ou suja de lama
de cara bem feia:
curumim tu és
livre na aldeia.
Em solto galope
nas tardes descendo,
um potrinho tu lembras
no haras correndo.
Mas tão livre assim,
a tudo alheia,
curumim tu és
livre na aldeia
Regando plantinhas,
sem medo de cobra
coragem lhe sobra
para mexer na teia,
pendurada na árvore
da aranha bem feia.
Ah, curumim tu és
livre na aldeia!
Rap da Paz
Ana TrajanoA paz está nas ondas
A onda é a paz
A paz que podemos
sempre ter mais
Está em nós
É só ir atrás
Precisa de voz
Dê voz à paz
Precisa de vós
Venha a vós a paz
Ana Trajano
Tudo lhe falta:
amigos, carinho-
palavras tão ternas!
Aonde vai é insultado:
-sai daqui, vira-lata!
E o pobre coitado
sai com o rabinho
entre as pernas...
Pardalzinho
Ana Trajano
Pardalzinho fez um ninho
numa árvore do jardim.
Pardalzinho sorrateiro,
fez um ninho no pinheiro,
e outro aqui dentro...
de mim!
Hei de ser telhado
e ter beiral.
De ser gramado
cobrindo todo quintal.
Hei de ser fonte, inseto,
capim.
Hei de ser casa
e ter terreiro.
De ser céu azul, arrozal,
liberdade,
enfim!
Para o pardalzinho bagunceiro
que nascer dentro
de mim!
Mãezinha do céu
Eu cansei de ver
A audiência que dá
Lágrimas tristes
Sangue e martírio
Dedos em riste
E cheiro de lírio...
E o mar avança zangado
sob o olhar de pinguins assustados,
baleias, focas, leões marinhos...
...E o mar avançando zangado!
Efeito dos gases poluentes,
jogados aos montes na atmosfera.
O Planeta, sem paz, ficou doente,
como tudo mais em nossa era.
Há nas ondas tanta mágoa,
tanto lixo, tanto óleo derramados!
Não há paz na música das águas
do mar que avança zangado!
Ana Trajano ("A Sementinha do Bem-me-Quer)
Gulodice
Ana Trajano
-Mamãe,
cheia de formosura
com sua roupa pintada,
na alta costura
dos gonomos e fadas!
Vestida de bolinha
tão anos sessenta
terá a mesma roupinha
em dois mil e noventa!
(Do meu livro de poesia infanto-juvenil "A Sementinha do Bem-me-Quer")
Ana Trajano












