segunda-feira, 17 de setembro de 2012


                                               Seja a paz
                                       Ana Trajano          


Você já se sentiu a paz? Isso mesmo: não em paz, mas a paz. Sei, é estranho falar assim,  pois remete a uma ideia de santidade. Mais estranho ainda quando você sabe que de santo não tem nada. Mas o problema talvez seja exatamente este: a paz é tão difícil, tão maculada porque a imaginamos de forma errada: procuramos estar em paz, quando deveríamos ser a paz. Tudo o que não é a paz, a destrói para nós e em nós. Mas ela só é destruída  porque a enxergamos como uma entidade fora de nós.
            Isto é, perdemos a nossa identidade mais sagrada, a paz, e perdendo-a  passamos a vê-la como algo quase impossível,  só próprio dos santos. Ou seja, um pequeníssimo número de pessoas que ousaram não perder sua identidade. Para isso brigaram com o mundo sem brigar consigo mesmos, estiveram no mundo sem se deixar absorver por ele. Em resumo, foram guerreiras da paz porque sabiam ser ela própria.  Entendiam que a paz só existe quando se é a paz, pois ela não se estabelece, ou se destrói por si mesma. Ela só é destruída ou estabelecida em nós e a partir de nós.
             E a paz aqui passa até mesmo pelo desapego completo à vida, por nenhum temor da morte, pois estas criaturas entenderam, ou entendem, que o mundo pode tirar suas vidas, mas jamais matará a paz que elas são, que representaram, ou representam, pois a paz e suas almas são uma única essência.
            “Se alguém me matar hoje e eu morrer sem um gemido, aí sim terei sido um verdadeiro mahatma” (grande alma, em sânscrito). Palavras de Gandhi, 12 horas antes de ser assassinado, sem esboçar um gemido. Gandhi só conseguiu lutar pela paz no seu país, livrando-o do jugo dos ingleses, porque descobriu que ele próprio era a paz e, convicto da sua identidade, jamais se intimidou. A paz, como a alma,  é divina, e grande alma é aquela que não nega sua verdade para agradar ao mundo, ou a uns poucos.
            O mundo, na verdade, é um grande desafio. Estamos a cada segundo sendo desafiados a assumir, ou negar, aquilo que somos, dependendo do quão conveniente seja para nós uma ou outra posição. O medo mascara nossas digitais. O temor do conflito com o mundo, ou com o outro, pode até nos livrar de muitos dissabores, mas não nos livrará da batalha com nós mesmos. E esta talvez seja a pior. “O que me assusta não são as ações e os gritos das pessoas más, mas a indiferença e o silêncio das pessoas boas,” dizia Martin Luther King. O grande dilema, ou a grande dor, é constatar que, o que silenciamos para o mundo, não conseguimos silenciar para nós.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012


                GAIA: DE GOETH A LOVELOCK
Ana Trajano                 

Com a intensidade das desordens climáticas, muito se tem falado sobre a Hipótese Gaia na busca de explicações para o que está acontecendo. Poucos sabem, entretanto, que muito antes de Lovelock elaborar  sua hipótese, segundo a qual a Terra é um organismo vivo que sente e reage às agressões, Goeth, no século XVIII, já imaginava  o Universo dessa forma. E ia mais além: via a natureza como uma totalidade orgânica em profunda conexão com o mundo espiritual, e não apenas como um mecanismo frio e sem alma, constituído apenas por matéria em movimento.
Na Primeira Parte do Fausto (Noite), quando o sábio, de mesmo nome, invoca o Espírito da Terra, e é surpreendido por ele, Goeth dá um exemplo disso: descreve este espírito como um princípio que permeia, ou impregna, o organismo do Universo. Vejamos os versos:

“Abaixo, acima bóio,
Aqui e ali vagueio!
A morte, o nascer,
Um pélago eterno,
Tecido cambiante,
Brilhante viver”.

Assim como Lovelock, cuja teoria não foi bem vista, Goeth também foi menosprezado pela comunidade científica da época. Consequentemente, suas pesquisas em vários ramos (ótica, anatomia, botânica, etc.) não tiveram a atenção que merecia. E o genial Goeth tornou-se mais conhecido nas artes como poeta e escritor do que como o cientista que foi. Deste, poucos conhecem. Na verdade, Goeth dava mais ênfase às suas pesquisas do que à sua produção literária.
O homem que deu vida ao Fausto, utilizou-se da literatura para transmitir sua cosmovisão e todo saber que detinha em ramos do conhecimento nos quais passeou com maestria. As primeiras páginas de sua principal obra, mostra claramente esse modo de enxergar a natureza, que se opunha à forma mecanicista como a ciência a via- e continua vendo. Goeth a descreve como uma teia de relações, onde tudo está conectado: se mexemos em um fio, o conjunto será atingido. Ao contemplar o signo do macrocosmo, Fausto afirma:

 “Como tudo no todo vai fundir-se
E atuam e vivem uns nos outros
Os seres!...”

Mas nem tudo está perdido.Em “Das Gottliche (O Divino), ode escrita pelo poeta em 1782, ele dá a receita para uma boa convivência com a natureza, lembrando-nos que  na constituição física somos iguais aos demais seres, pois somos feitos de matéria. O que nos diferencia é que somos seres espirituais. Concluímos que nesses dias tão difíceis, para nós e para a mãe Gaia, o que necessitamos é conectarmos nosso espírito ao Espírito do Universo.

“Que o homem seja nobre
Prestativo e bom!
Pois só isso
O diferencia
De todos os seres
Que conhecemos”.

Para nós, humanos, só nos resta a saída: ou sermos “prestativos e bons”,  fazendo jus à nossa privilegiada posição, no topo da árvore da vida, ou continuarmos agindo dentro desse enorme organismo vivo que é a Terra, como células cancerosas, com grande poder de malignidade.


                        O CORAÇÃO DA TERRA

Outro indicativo de que a Terra é um organismo vivo em profunda conexão com todos os seres é a Ressonância Shumann. Embora muitos não acreditem e vejam com ceticismo sua influência sobre o meio-ambiente e os seres, ela é uma realidade física e está incluída entre as constantes da natureza. Mas o que é e como funciona essa ressonância? Em resumo é um campo eletromagnético existente na Terra, descoberto em 1952 pelo físico alemão W.O Shumann. Esse campo se estende do solo até a parte inferior da Ionosfera que em distância corresponde a aproximadamente 100 quilômetros acima de nós.
Shumann constatou que esse campo eletromagnético funciona com uma ressonância (batidas, pulsações) mais ou menos constante de 7,83 hertz por segundo. Verificou-se depois que o cérebro humano e os vertebrados funcionam nessa mesma freqüência. Fora dela as pessoas adoecem. É o que acontece, por exemplo, com os astronautas. Sempre que em suas viagens espaciais eles saiam dessa frequência, adoeciam. Submetidos a um Simulador Shumann, recuperavam a saúde.
Na realidade, a Ressonância Shumann funciona como um marcapasso, responsável pelo equilíbrio da biosfera. O problema é que a partir da década de 80, e de forma mais acentuada, nos anos 90, essa ressonância aumentou de 7,83 hertz para 11 e 13 hertz. Isto é, o coração da Terra disparou. Segundo Leonardo Boff, em artigo publicado no Jornal do Brasil, em 2004, “coincidentemente desequilíbrios ecológicos se fizeram sentir: perturbações climáticas, maior atividade dos vulcões, crescimento de tensões e conflitos no mundo, e aumento geral de comportamentos desviantes nas pessoas”. Outra conseqüência é a aceleração do tempo com redução da jornada de 24 horas apenas 16.
            

sexta-feira, 4 de maio de 2012


Mas, afinal, o que é e onde está a Paz?

Ana Trajano                                             

 A paz nasce também da consciência de unidade, de nós com o todo, isto é, com o mundo que nos rodeia, e, sobretudo, com o Criador. Perdemos a paz quando perdemos essa consciência, pois nos tornamos seres fragmentados, esquecidos de quem somos: um com Deus e com a natureza. A vida levada a negá-los e a destrui-los em nós, vai se tornando conflituosa, vazia, sem paz e insuportável. Negar essa unidade é perder a nossa essência, a face que verdadeiramente nos identifica e revela. Negá-la é optar pelo conflito. 
 Paz é o estado de espírito que se alcança quando vencemos em nós toda forma de conflito. O mundo pode estar em guerra e eu, ou você, estar em paz, mas o mundo pode estar em paz e eu, ou você, estar em guerra, pois a forma de violência mais difícil de ser vencida é a subjetiva, é a que está incrustrada nos nossos pensamentos, nos "pré-conceitos" que formamos do outro, nos nossos medos, nos nossos desejos vis, frutos quase sempre da nossa ganância, da nossa necessidade de discriminar, de excluir, de explorar seus semelhantes e a natureza para tirar proveito. E quem age assim não está em unidade com o seu Criador
Todos os pacificadores precisaram antes se desnudar de suas violências internas, extirpá-las do seu coração: a violência dos atos, a violência dos pensamentos, a violência dos julgamentos.  Agnes Gonxha  Bojaxhi não teria sido  Madre Teresa de Calcutá se tivesse dentro de si  alguma forma de preconceito,  a começar pelo religioso (uma católica na terra dos hindus e muçulmanos), se dentro de si houvesse algum medo ou discriminação contra as pessoas a quem dedicou a vida, fez do serviço a elas a sua razão de ser: mendigos, portadores de todo tipo de deficiência, leprosos , tuberculosos, etc. E livre de preconceito foi muito corajosa para lutar contra o dos outros, porque liberta  de si  já havia conquistado a paz. Só conseguimos transmitir paz quando estamos em paz. Por isso a paz é tão difícil. Quem de nós não luta nesse instante consigo mesmo?
A grande batalha que travamos na vida é contra nós próprios, e o nosso maior desejo é encontrar a paz, a quem certamente só chegaremos quando acabarmos com a nossa fragmentação, a diversidade que existe em nós. Dizia Sathya Sai Baba que não somos apenas um, mas  três: aquele que pensamos que somos,  aquele que os outros pensam que somos e aquele que realmente somos. Quanta verdade! Nisto consiste a nossa fragmentação, e o desvio de nós próprios, pois o que pensamos que somos e o que os outros pensam que somos camuflam o nosso verdadeiro eu. Como conhecer a paz se eu não conheço nem a mim? Conhece-te a ti mesmo e conhecerás Deus, fonte de toda paz.
O texto a seguir- a Visão de Enoch, do Evangelho Essênio da Moisés-, lembra-nos que só quando desenvolvemos em nós a consciência de unicidade com o todo alcançamos a paz, pois neste todo reconhecemos Deus e re-conhecemos a nós mesmos. Afinal, Deus está sempre a nos dizer: “Por que temer se eu estou aqui?”


Serena-te e reconhece, Sou Deus

(Evangelho Essênio de Moisés - Visão de Enoch)



Galáxia Átomos pela Paz

Te falo. Serena-te, reconhece que Sou Deus. 
Te falei quando nasceu. Serena-te, sou Deus. 
Te falei em sua primeira contemplação. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falei em tua primeira palavra. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falei em teu primeiro pensamento. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falei em teu primeiro amor. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falei em teu primeiro cântico. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através do pasto das pradarias. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através das árvores dos bosques. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através dos vales e das colinas. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através da montanha sagrada. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através da chuva e da neve. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através das ondas do mar. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através da umidade da manhã. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através da paz do entardecer. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através do fulgor do sol. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através das estrelas brilhantes. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através das nuvens e das tormentas. Serena-te e reconhece, sou Deus. Te falo através do trono e do relâmpago. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através do arco-íris misterioso. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falarei quando estiver só. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falarei através da sabedoria dos antigos. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falarei quando haja visto a meus anjos. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falarei por toda a Eternidade. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 


                

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Por uma audiência ética


Ana Trajano

Há quatro semanas venho expondo neste blog o problema da violência midiática e suas consequências para a formação, sobretudo de crianças e adolescentes. Vimos no primeiro texto apresentado que a televisão é um poderoso instrumento ideológico nas mãos da elite dominante para manipulação das massas e, neste contexto, os programas vespertinos "policiais" trazem consigo forte conotação ideológica que expõe a relação entre classes, segundo especialistas citados. (Ver texto “Violência midiática expõe relação entre classes.”


Mostramos que a exploração exagerada da violência tem amparo na inexistência de legislação específica que regule a televisão brasileira. E, no terceiro texto da série, apresentamos as principais teorias que explicam a violência, suas causas e consequências. Diante de tudo aqui exposto fica a conclusão: a violência só tem espaço na mídia porque damos audiência a ela. Não sabemos por qual motivo o sangue que circula nas veias do homem e lhe dá vida, parece atrai-lo tanto quando derramado, extinguindo ou comprometendo a vida de outro ser. Como se aquilo que não é visível ( a vida em sua essência) pudesse finalmente ser observado.


Não é à toa que Roma atraía a população com o sangue dos lutadores. Enquanto este era derramado, diante de plateias de milhares de pessoas, o império mantinha sua glória. Podemos dizer que era catártico para as massas. Para estas, a violência dos governantes, ou do sistema de governo romano, era esquecida na violência que Roma apresentava como espetáculo. O império acabou, mas o gosto pelo “divertimento” macabro continuou, e a televisão, infelizmente, substitui o palco dos gladiadores, com tanta morte e sangue apresentados.


Por trás daquela coisa horrenda estava a ideologia romana de dominação, assim como por trás do que é apresentado por nossa mídia, ou boa parte dela, está a ideologia de dominação de nossa elite.


Se a sociedade está violenta, a televisão não deve omitir-se de apresentar isto, cumprindo assim seu papel informativo. Mas entre “informar” ou agir como Roma,  há uma grande diferença. E o que se vê na televisão brasileira hoje é um verdadeiro patrocínio da violência, da qual ela, assim como um vampiro, tira parte do que lhe sustenta porque é audiência garantida.


A violência saiu do âmbito dos programas vespertinos policiais para ganhar as novelas que o brasileiro consome como feijão com arroz. Aquela que não tiver um assassino em potencial, de preferência engraçado, no estilo Tereza Cristina, parece correr o risco de não fazer sucesso. E a morte vai, cada vez mais, se tornando algo banal e engraçado como os personagens da televisão.


Mas, como afirmei acima, a violência na mídia só existe por dois motivos: porque tem quem a veja e pela falta de legislação que regule a TV. Se o Estado até agora fez vistas grossas, deixando de fazer a sua parte, cabe a nós fazer a nossa. E podemos começar estabelecendo uma audiência ética, treinando, ou “educando nosso olhar”, para vermos, e permitir que nossos filhos vejam, apenas programas que sejam proveitosos, do ponto de vista educativo, para o seu crescimento intelectual.


Audiência ética significa não apenas deixarmos de ver os programas com conteúdos violentos, mas também nos recusarmos a comprar produtos de empresas que patrocinem tais programas, pois são os patrocinadores que lhe garantem vida.





quinta-feira, 12 de abril de 2012

A “aceitação do inaceitável” e a morte do afeto
         Teorias explicam efeitos da violência na mídia
 

Ana Trajano

Joana é uma senhora de 76, católica praticante que não perdia a missa aos domingos. Com medo da violência que vê na televisão, ela não sabe mais o que é sair de casa. Tudo lhe assusta: sirenes, batidas na porta- mesmo que seja de familares-, passos na calçada, encontrar-se com alguém desconhecido na rua...Temerosa, ainda passa seu medo para as netas, contando os inúmeros relatos de casos de violência que assiste na televisão. Faz isso na esperança de que as meninas, todas adolescentes, procurem não sair, não ir às festas e permaneçam “seguras” em casa. “Tá muito perigoso! Você ver sair e não sabe se volta vivo”- afirma.

Pedro, de oito anos, passava as manhãs vendo os desenhos animados na TV e jogos de vídeo-game, todos de conteúdo violento. Eram os preferidos do menino. Certo dia ele chegou ao colégio e disse para a coleguinha que iria “matar todos ali. Iria fazer igual ao que tinha visto no jogo.” Assustada, a menina contou a mãe que procurou a coordenação de classe no dia seguinte. Qual não foi a surpresa de Ana ao ouvir da coordenadora que este mesmo jogo de cartas, baseado num desenho de mesmo nome, e armas de brinquedo, já haviam sido proíbidos, e eram recolhidos todos os dias na escola, mas os pais obrigavam a direção a devolve-los aos filhos.

Joana e Pedro são exemplos de como, banalizada, a violência vai fazendo suas vítimas, as fatais e aquelas que sobrevivem a ela, mas passam a apresentar problemas emocionais. Como explicar isto à luz da ciência? Qual a teoria, ou teorias, que explique (m) a questão da violência, e as consequências da exposição a ela, especialmente a midiática?

Muitos são os teóricos que têm se debruçado sobre o tema, e em contrapartida muitas são as teses existentes. Entre as principais contam-se aproximadamente 15. Entre as primeiras está a teoria lombrosiana que, mesmo sem nenhuma base científica, influenciou e, ao que parece, ainda continua influenciando muita gente no que se refere ao perfil do criminoso, sobretudo aqueles que que se deixam levar pelo preconceito.

Cesare Lombroso (1835-1909), psiquiatra, professor universitário e criminologista italiano, defendia a ideia segundo a qual o criminoso apresenta características físicas próprias, tais como: protuberância occipital acentuada, lábios grossos, nariz torcido, arcada dentária defeituosa, órbitas grandes, anomalias nos órgãos sexuais e, até, braços e mãos grandes, entre outros. Características que, como se percebe, são de pessoas consideradas “feias” e quem se enquadrasse nestas descrições podia representar uma “ameaça”. A teoria, como era de se esperar, caiu no descrédito por trazer em seu bojo o preconceito contra as minorias sociais.

A teoria lombrosiana está entre as consideradas geneticistas. A outra nessa linha é a do mapa cromossômico, segundo a qual a formação cromossômica determina também a agressividade da pessoa. Isto é, o comportamento agressivo é determinado geneticamente, pois o indivíduo o traz inscrito na sua herança cromossômica. Assim como a primeira, esta teoria não ganhou credibilidade científica, por não levar em consideração fatores sociais, psicológicos e históricos.

Os críticos da corrente geneticista afirmam que é um equívoco a conclusão implícita de que a violência é intrínseca à natureza humana. Entre os que compartilham este pensamento está o psicólogo social Erich Fromm, para quem a sociedade industrial moderna é a responsável pela onda de violência, graças as mazelas que apresenta, entre as quais o isolamento, a solidão, as tecnologias destrutivas, entre outros.

Engels também chegou a analisar a violência, vendo-a como resultado das relações de classe que se estabelecem a partir da propriedade privada dos meios de produção, já que isso representa a submissão daqueles que não possuem os meios de subsistência aos detentores  de sua propriedade.

A seguir, de forma bem resumida, algumas dessas principais teorias.

Teoria da evolução biológica – A violência é explicada através da luta pela sobrevivência. Os seres de maior poder ou força derrotam os mais fracos em nome da sobrevivência biológica.

Teoria psicofisiológica – A violência ocorre como efeito provocado por substâncias químicas e estímulos sensório-motores e comportamentais que podem alterar a conduta animal e humana. Drogas como a cocaína e o crack podem estimular e outras (álcool, maconha, heroína e alguns inalantes) podem inibir o sistema nervoso central, provocando comportamentos violentos. Apesar de ter grande credibilidade junto a comunidade científica, esta teoria é vista com restrições pelos cientistas sociais por não considerar problemas sociais, econômicos, políticos e culturais.

Teoria da dessensibilização - A perda de sensibilidade emocional, ou dessensibilização , é causada pelo ato prologado de ver violência na mídia. Segundo pesquisadores, a banalização da violência pode provocar indiferença social e política. “Neste contexto, a TV tem contribuído para fomentar o medo e a insegurança entre a população. O pior, entretanto, é o gradual processo de insensibilização decorrente da banalização da violência. Como diz Lasch, os mass media facilitam “a aceitação do inaceitável”. E mais: amortece o impacto dos acontecimentos, neutraliza a crítica e os comentários e reduz mesmo “a morte do afeto” a mais um slogan ou clichê.” A afirmação é do professor e doutor pela Usp, Magno Medeiros da Silva, no texto “Teoria das Violências, Mídia e Direitos Humanos”. Vale salientar que, entre outros, me baseei sobretudo neste texto para escrever o aqui exposto no que concerne especificamente às teorias.

Teoria da síndrome do medo – Medo exagerado e ansiedade incontrolável são alguns dos efeitos produzidos pela exposição à violência na mídia. Assim como para a senhora Joana, no exemplo citado acima, tudo e todos passam a ser suspeitos. Entre as crianças, segundo Magno Medeiros, este estado patológico dificulta a distinção entre ficção e realidade. A psicanalista Raquel Soiler, citada no mesmo texto, refere-se aos telespectadores como “teledependentes” e afirma que estes, principalmente as crianças, podem estar sofrendo de “televisiosis”, doença da contemporaneidade.

A exposição intensa a violência também pode provocar a perda de diretrizes éticas, além de insegurança e medo generalizados, segundo conclusões feitas pelos pesquisadores Werner Ackermann, Renauld Dulong e Henri Pierre jeu. Estaria deflagrando também uma espiral de violência na sociedade.

Teoria da orientação – Em resumo, o conteúdo do que é produzido na mídia serve como orientação, ou referência, que determina o comportamento do indivíduo. A mídia, neste sentido, estimula e reforça modelos, principalmente entre as crianças. Esta orientação, entretanto, depende de muitos fatores, entre os quais conteúdo da mídia,, frequência, formação, experiências passadas, ambiente familiar, etc.

(Imagem: Google)

terça-feira, 3 de abril de 2012

Violência midiática: fiscalizar não é censurar
Ana Trajano

Voltando ao assunto da violência midiática, podemos refletir: qual a causa? O controle é possível? Jornalistas e cientistas sociais são unânimes na resposta: o problema é a falta de regulação do que é produzido pela mídia, no caso específico aqui discutido a televisão. Fato é que sem ela, o país tornou-se terra de ninguém, no qual a permissividade tem o mesmo tamanho da falta de fiscalização, e esta é confundida com censura.

Identificar a fiscalização com a censura tem sido prática muito bem utilizada pelos empresários brasileiros da área de comunicação e que, como se percebe, tem surtido efeito. “Esta é a operação ideológica mais presente no discurso do empresariado desde os anos 80,” afirma a jornalista e socióloga Maria Eduarda Rocha, em depoimento ao documentário “TV Alma Sebosa”, já citado em texto anterior, aqui neste blog.

O Estado, na sua opinião, não pode se omitir, tolerando a veiculação de todo tipo de mensagem, e necessita, o quanto antes, discutir essa regulação. “Não é a democracia que está sendo ameaçada quando o Estado intervém dessa forma; muito pelo contrário. Nós temos que pensar que quem tem que assumir os interesses coletivos é o Estado e a sociedade civil. Se depender das empresas de comunicação elas só o farão como uma resposta, quando forem pressionadas a isso”, afirma.

Não há possibilidade, ainda de acordo com ela, da democracia institucional no Brasil ser ampliada, transformando-se numa democracia de fato, sem a democratização da mídia. “É uma espécie de reforma agrária das ondas eletromagnéticas o que temos de produzir agora.”

A mesma opinião tem o jornalista Ivan Morais, em depoimento no mesmo documentário, para quem o concessionário de um canal de rádio ou TV tem compromissos com a sociedade, e para que estes sejam efetivados precisam passar pela regulamentação que pode ser feita de várias formas. “No Brasil, as leis que regulamentariam esse exercício do controle social jamais existiram”, enfatiza.

Mas o que é fiscalização e o que é censura? Há algo de comum entre ambas que possa confundi-las, a ponto de o empresariado recorrer a essa artimanha sempre que se lança um olhar sobre a necessidade da regulação? Não há nada em comum. São ações completamente distintas. Vejamos o que diz o professor e doutor em Comunicação pela Usp, Magno Medeiros da Silva, em “Teoria das Violências, Mídia e Direitos Humanos: ”Censura constitui uma ação coercitiva, repressora, uma violência a inalienável á liberdade de expressão e de imprensa. Fiscalizar constitui um ação de cidadania, um exercício da democracia, na medida em que a própria população vai redefinindo permanentemente os limites éticos que regem as interações e contradições sociais.” “Censurar nunca; fiscalizar sempre”, conclui.

No mesmo trabalho, Magno sugere como estratégias para a construção da cultura de paz e dos Direitos Humanos, os seguintes pontos: debate público e ações políticas, envolvendo os vários segmentos sociais; desenvolvimento de códigos de conduta profissional e empresarial; e educação face a mídia, objetivando formar receptores críticos, competentes e de refinada consciência ética e estética.















terça-feira, 27 de março de 2012

Violência midiática expõe relação entre classes

Ana Trajano

A violência midiática, que alimenta com sangue os programas vespertinos, longe de representar apenas um filão bastante lucrativo, do ponto de vista dos índices de audiência, descoberto pela televisão, expõe, sob a ótica dos fenômenos sociais, as faces da luta que se trava entre as classes dominante e dominada. Vale lembrar que os veículos de comunicação pautam-se, sobretudo, por interesses políticos e ideológicos. E são tantos os abusos cometidos, e tão pouca, ou nenhuma, a legislação que regule a televisão que fica a pergunta: por quê será?

Os “mass media”, ou meios de comunicação, particularmente a TV, na verdade apropriam-se da cultura da violência para, com base nela, montar seu espetáculo. Nesse contexto, a violência já não é mercadoria oferecida apenas pelos vespertinos aqui em discussão, mas as novelas, e até os infantis, estão recheados dela. E interesse político e ideológico, no caso específico da programação policial, está exatamente em mostrar a violência pela violência, sem nenhuma discussão, ou questionamento sobre suas causas.

“É a transformação da vida humana no espetáculo da carnificina, sem nenhuma discussão política ou sociológica. Só o circo humano no seu pior formato”, compara a professora Malena Contrera, doutora em Comunicação, em depoimento no documentário “TV Alma Sebosa”, projeto de conclusão de curso na Unicap (Universidade Católica de Perbambuco). Vale salientar que escrevi este texto inspirada no documentário, e todos os depoimentos que utilizei para ilustrá-lo fazem parte dele.

Se lançássemos outro olhar para enxergar além das câmeras veríamos a sutileza que há por trás das imagens captadas pelos programas policiais. De um lado a mídia, poderoso instrumento nas mãos da classe dominante, utilizando-se de deplorável narrativa para estigmatizar as classes que literalmente considera “baixas”, sem nenhum valor, quanto ao poder aquisitivo e cultural.

Vejamos o que diz a professora Malena.“Também é uma tentativa de estigmatizar a classe pobre como “classe pobre”: a classe pobre é sinônimo de violência, de baixaria, não tem nada que preste. Só consegue alguma ascensão através da música, do Funk, do Raggae. Ou seja, é uma maneira de manter cada classe no seu lugar.”

Por outro lado, estão as classes menos favorecidas buscando nesses conteúdos o meio através do qual possam se expressar, lembrar sua existência, expor suas inquietudes, seus problemas. “Em que outro espaço na televisão brasileira a classe pobre se ver representada? –indaga a professora, para quem ela só é vista através do que existe de pior. “O que ela tem de melhor ninguém mostra.”

Esses programas, é fato, conseguem índices maiores de audiência entre as classes mais pobres. Mas porque, afinal, isso acontece? Quem procura responder é o jornalista Ivan Moraes, enfatizando também a questão da representatividade buscada pelas camadas mais populares. Na sua opinião, eles fazem tanto sucesso menos pela questão da violência, ou mesmo da cobrança por justiça e cidadania, e mais por que as pessoas que vivem nessas comunidades veem neles a oportunidade de observar parte da sua realidade.

-A necessidade não é de ver violência, mas de ver coisas com as quais se identifiquem. É ali onde ele observa o sotaque dele, a rua dele, onde ele ouve falar o nome do seu bairro, afirma.

Realidade nem sempre mostrada em sua totalidade, pois, afinal, como bem lembra Malena, a mídia é um espelho, mas um espelho dos horrores que deforma, aumenta, engorda, torce...”Então os pobres se olham no espelho da mídia e se veem deformados por essa criminalização. Isso gera um impacto muito complicado nos bolsões de pobreza que perdem a fé na sua dignidade.”

Entre as consequências dessas distorções, apontadas por Ivan, estão as dificuldades que muitas pessoas têm de conseguir emprego, e faz com que algumas procurem mentir sobre o endereço em seus currículos, visto que alguns bairros estão estigmatizados pela criminalização.

TV ESPETÁCULO

Do ponto de vista comercial, fica mais fácil entender o problema da violência na mídia quando lembramos que veículos de comunicação, no caso a televisão, são empresas que sobrevivem da audiência dos produtos oferecidos, cuja essência é a imagem. Isto é, os anunciantes, obviamente, procuram divulgar suas mercadorias em programações com maior receptividade junto ao público. “Em nome da audiência se constrói o espetáculo! É um show!”, enfatiza a jornalista Stella Maris, lembrando que os programas policiais são construídos com esse objetivo.

No que se refere ainda a audiência, há um paradoxo muito grande entre as duas classes. Para as pessoas mais afetadas, ou visibilizadas por eles, isto é, aquelas que habitam as camadas mais populares, esses programas passam, de acordo com Ivan, a sensação de conforto, de que existe um parceiro, ou alguém, que está lá lutando por seus direitos.

Enquanto que aqueles telespectadores, que não precisam desses direitos garantidos, que contam com segurança, ou do aparelho policial, ou privada, os veem como humorísticos, que são engraçados muitas vezes por mostrar a desgraça da população. “É muito perigoso quando você olha para o seu companheiro, para o seu vizinho e vê na desgraça dele a sua diversão.”

Segundo a socióloga Maria Eduarda Rocha , na sociedade espetáculo o que é vivido diretamente, passa a ser experimentado através da imagem. “Espetáculo não é sinônimo, nem conjunto de imagem. Espetáculo é um tipo de relação social, em que a vida do sujeito é completamente povoada por imagens, que não são imagens quaisquer; são imagens de mercadorias.”

Esses programas, na sua opinião, estão transformando a violência numa mercadoria extremamente cobiçada, que vende muito, já que o capital não tem pudor. “Não cabe ao capital pensar que tipo de efeito social, ou político, está produzindo. Isso é uma tarefa da sociedade, que tem de receber o apoio do Estado.”

(Imagens: Google)

  PAZ NAS REDES Ana Trajano As redes sociais transformaram as nossas vidas, é fato - tanto que já não nos imaginamos sem elas. Porém, també...