segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Do Romantismo a Ecofilosofia: uma visão
    holística do mundo ( Terceira Parte)

Ana Trajano


   Como vimos no texto anterior, é no Iluminismo onde encontramos a primeira semente do Romantismo na figura de Jean Jacques Rosseau que, apesar de inicialmente participar deste movimento, opõe-se mais tarde a ele, criticando o culto frio a razão e defendendo que "os sentimentos naturais conduzem o homem para o caminho correto, enquanto  a razão o desvirtua."
   A partir daí estavam lançados os alicerces do Romantismo, movimento que se opunha radicalmente a  visão puramente racional do ser e do mundo. Para os jovens românticos o homem não é só razão, não se reduz apenas a uma mente que pensa; ele é também espírito que se expressa através dos sentimentos. Negar essa realidade, é negar a totalidade humana.
   Como também é negar a totalidade humana dissociar o homem da natureza, o ser do mundo. Os românticos veem a natureza como um organismo vivo, uma infinita teia cósmica que, ao se mexer num fio, é no todo que se está mexendo. Eles não dissociam Deus da natureza; no seu entender a natureza é o próprio Deus. Para Schelling, maior dos filósofos românticos, tudo o que existe, em todos os reinos, é expressão visível de Deus. Por isso eles estavam sempre à procura do espírito das coisas. Goeth, por exemplo, achava inadmissível para um cientista debruçar-se sobre um ser morto com o propósito de estudá-lo. Pois a partir da sua morte, a criatura (uma borboleta, por exemplo) é apenas um cadáver, sem o princípio que o torna um ser. Para ele, jamais se compreenderá a totalidade do ser estudando apenas o cadáver.
   Partamos agora para a Ecofilosofia. Assim como o Romantismo, este movimento surgiu em momento de crise, no qual tudo parece estar sendo desconstruído e começamos a repensar os valores nos quais alicerçamos nossas sociedades. Todas as visões de mundo, todos os erros que cometemos, estão chegando ao seu ápice. Estamos sofrendo as consequências não apenas do nosso distanciamento da natureza, como já temia Rosseau, mas dos maus tratos que lhe causamos.
   A Ecofilosfia, ou Ecologia profunda, ou simplesmente Ecosofia, como preferem chamar outros, surgiu na década de 70, com o filósofo norueguês Arne Naess. Entre outros pontos, ela se constitui dos seguintes, aqui destacados:

  1-O bem-estar e o florescimento da vida humana, e da não humana, sobre a Terra têm valor em si próprios. Esses valores são independentes da utilidade do mundo não humano para propósitos humanos;

   2-A riqueza e a diversidade das formas de vida contribuem para a realização desses valores e são valores em si mesmos;

   3-Os humanos não têm nenhum direito de reduzir essa riqueza e diversidade, exceto para satisfazer necessidades humanas;

 4-A interferência humana atual no mundo não humano é excessiva e a situação está piorando rapidamente;

 5-As políticas precisam ser mudadas. Essas políticas afetam estruturas econômicas, tecnológicas e ideológicas básicas. O estado de coisas resultante será profundamente diferente do atual;

 6-A mudança atual é basicamente a de apreciar a qualidade de vida (manter-se em situação de valor intrínseco), não a de adesão a um sempre crescente padrão de vida. Haverá uma profunda consciência da diferença entre grande e importante; 

 7-Aqueles que subscrevem os pontos precedentes têm a obrigação de tentar implementar, direta ou indiretamente, as mudanças necessárias.

  Como podemos observar, através desses pontos, a Ecofilosofia é ecocêntrica, ao contrário da ecologia rasa que antropocêntrica. Poderíamos distinguir melhor essa diferença afirmando que os objetivos da ecologia rasa são transitórios, passageiros, e colocam o desenvolvimento econômico acima do desenvolvimento pessoal.                    Toda a destruição da natureza se dá em nome desse desenvolvimento, pois o homem é sua meta, seu centro.
  Já a ecologia profunda questiona todos esses valores centrados apenas na economia, para um pretenso - e questionável- desenvolvimento humano. Ao analisar seus fundamentos podemos observar vários pontos em comum entre a Ecofilosofia e o      Romantismo, no que diz respeito as relações do homem com a natureza.
  Assim como o Romantismo, a Ecofilosofia só acredita na possibilidade de desenvolvimento que considere- e respeite- a integração do homem com o mundo no qual vive.
  Da mesma forma que a Ecofilosofia, o Romantismo, mais do que uma escola literária e artística- como convencionou-se identificá-lo- é uma cosmovisão, uma maneira de enxergar o mundo, de perceber que o homem não é um ser à parte do Planeta que habita, de enxergar, por fim, que não existe "eu e o mundo, mas eu no mendo."
  Nessa relação de superioridade em que se coloca, em nome da razão, a catarata provocada pelos valores que já se mostram tão superados, tão decadentes, não o faz enxergar que o mundo é superior a ele, pois é ele que está no mundo.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012



Do Romantismo a Ecofilosofia: uma visão
         holística do mundo (Parte II)

Ana Trajano


         Concluímos o texto anterior falando de homens que, desafiando o seu tempo, ousaram lançar outro olhar sobre a natureza, e a nossa relação com ela, alertando sobre os danos, para ambos, o modo como até então a enxergávamos: um mecanismo frio, sem alma, que serve apenas a nossa ambição.
         O que tem em comum todos eles? Seu espírito visionário, sua coragem e os movimentos que fundaram, ou influenciaram, em tempos distintos, isto é, o Romantismo, no século XVIII, e a Ecofilosofia, de Naees, no século XX. Esses dois movimentos entrelaçam-se  num mesmo objetivo: uma visão holística que promova a união do homem com a natureza, a fusão completa entre o ser e o mundo.
         Tentemos, agora, caracterizar estes movimentos e, através disto, estabelecer conexões entre ambos. O Romantismo teve início em fins do século XVIII, na Alemanha, e, aos poucos,alastrou-se por toda Europa, continente em crise que fervilhava com as mudanças, revoluções, particularmente a francesa. A própria Alemanha lutava ainda por sua unificação. Somando-se a tudo isso os ideais iluministas inquietavam a juventude, ou pelo menos parte dela.
         É no próprio Iluminismo onde se encontra a primeira semente do Romantismo, na figura de Jean Jacques Rosseau. Primeiro opositor ao culto frio  a razão, pregado pelos iluministas, ele passou a assegurar que “os sentimentos naturais conduzem o homem para o caminho correto, enquanto a razão o desvirtua.” Rosseau certamente referia-se a um modo de pensar que vinha desde Descartes, e que reduzia a identidade do homem à mente, agora acentuado com os ideais iluministas.
         De espírito visionário, ele enxergou que, acrescentando-se a isso, os ideais da sociedade capitalista, já tão fortes, que limitavam o desenvolvimento humano apenas ao progresso material, iriam culminar em desequilíbrios na relação do homem com a natureza, com grandes prejuízos para esta, ou para ambos.
         Para Rosseau, todo mal começou quando “o primeiro a que veio a ideia de cercar um lote de terra e de afirmar: “ isto me pertence”, e que encontrou pessoas suficientemente ingênuas para acreditar nele, foi de fato o fundador da sociedade burguesa. De quantos crimes, guerras, assassinatos, miséria e atrocidades teria poupado a humanidade aquele homem que tivesse arrancado os mourões, nivelado as valetas e convocado seus companheiros: “guardai-vos de acreditar nesse enganador! Estais perdidos se esqueceis que os frutos pertencem a todos e a terra a ninguém.”
         Deduz-se, assim, que da posse surgiu o poder absoluto sobre a terra, o domínio sobre ela e, com ele, a ganância. Mal que faz o homem esgotar todos os seus recursos, não lhe bastando tirar apenas o suficiente para o sustento, mas arrancando-lhe muito além do necessário para aquilo que considera progresso, e para seu desenvolvimento pessoal.










quarta-feira, 10 de outubro de 2012


                         Do Romantismo a Ecofilosofia: 
              uma visão holística do mundo
                                     (Primeira parte)
               Ana Trajano

Imagem: Google
         Houve um tempo no qual o homem curvava-se diante dos trovões, dos relâmpagos, da chuva que caía. A natureza estava acima dele, e ele ainda não havia desenvolvido a consciência egoica de que a razão o coloca em um patamar de superioridade com relação aos demais seres e ao mundo em que vive. Mas, aos poucos, esta consciência foi se desenvolvendo, e do medo nasceu o desejo de domínio, do desejo de domínio o de exploração: da natureza, de todas as criaturas.
         Hoje, o homem já não se curva com reverência, ou medo, diante dos trovões, dos relâmpagos, da chuva que cai, mas já não sabe o que fazer com as consequências da destruição ambiental, da devastação provocada não apenas pela busca de suprir suas necessidades, mas pela ganância, pelo conceito de desenvolvimento que formulou. Neste, parece estar invertida a posição dos verbos, na conjugação de uma convivência harmônica, com os demais seres, com o mundo em que vive, pois o “ter” vem sempre posicionado sobre o “ser”.
         Chegamos a um ponto em que a raça humana corre o risco de extinção, caso não venha a rever todos os valores nos quais baseou suas sociedades. Mas a partir de que instante começamos a correr este risco? A partir do instante, talvez, em que nos colocamos à parte da natureza, em que nos distanciamos dela, em que perdemos o sentido de unidade, de que somos um com ela, e passamos a enxergá-la apenas como um punhado de matéria pronta para ser explorada.
         Houve um tempo no qual este sentimento existiu em vários povos, ou civilizações primitivas que viam a natureza como mãe, que sabiam fazer parte do mesmo tecido cósmico (druidas, celtas, ciganos), mas à medida que o homem se  distanciava dela, foi também destruindo essas culturas, demonizando suas crenças, como o faz sempre que observa algum empecilho para os seus objetivos, mesmo que sejam os mais cruéis.
         Poucas foram as pessoas, num passado recente, que viram a natureza como um organismo vivo que pode – e está- sendo morto a cada pancada, a cada mar poluído, floresta devastada, solo infértil com os venenos que lhe cobrem. Mas essas pessoas como que deixaram impressos sua marca, sua palavra, seu grito de alerta que ecoa nas páginas da história sempre que atravessamos grandes crises.
         O que nos lembram esses homens? O mesmo que nos lembrou Beethoven quando, já surdo, nos disse, nos acordes da Nona Sinfonia, “que todos os homens são irmãos.” Nos bradam o mesmo que bradou Rosseau, ao nos mostrar como única saída o retorno à natureza. Nos alertam, como fez Novalis, que “a natureza é inimiga de posses.” Tentam, por fim, nos fazer entender, como o fez Arn Naees, que é urgente unir a alma do homem à alma do mundo, pois não existe o “eu e o mundo, mas o eu no mundo.”

                Continua na próxima semana.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012


                                               Seja a paz
                                       Ana Trajano          


Você já se sentiu a paz? Isso mesmo: não em paz, mas a paz. Sei, é estranho falar assim,  pois remete a uma ideia de santidade. Mais estranho ainda quando você sabe que de santo não tem nada. Mas o problema talvez seja exatamente este: a paz é tão difícil, tão maculada porque a imaginamos de forma errada: procuramos estar em paz, quando deveríamos ser a paz. Tudo o que não é a paz, a destrói para nós e em nós. Mas ela só é destruída  porque a enxergamos como uma entidade fora de nós.
            Isto é, perdemos a nossa identidade mais sagrada, a paz, e perdendo-a  passamos a vê-la como algo quase impossível,  só próprio dos santos. Ou seja, um pequeníssimo número de pessoas que ousaram não perder sua identidade. Para isso brigaram com o mundo sem brigar consigo mesmos, estiveram no mundo sem se deixar absorver por ele. Em resumo, foram guerreiras da paz porque sabiam ser ela própria.  Entendiam que a paz só existe quando se é a paz, pois ela não se estabelece, ou se destrói por si mesma. Ela só é destruída ou estabelecida em nós e a partir de nós.
             E a paz aqui passa até mesmo pelo desapego completo à vida, por nenhum temor da morte, pois estas criaturas entenderam, ou entendem, que o mundo pode tirar suas vidas, mas jamais matará a paz que elas são, que representaram, ou representam, pois a paz e suas almas são uma única essência.
            “Se alguém me matar hoje e eu morrer sem um gemido, aí sim terei sido um verdadeiro mahatma” (grande alma, em sânscrito). Palavras de Gandhi, 12 horas antes de ser assassinado, sem esboçar um gemido. Gandhi só conseguiu lutar pela paz no seu país, livrando-o do jugo dos ingleses, porque descobriu que ele próprio era a paz e, convicto da sua identidade, jamais se intimidou. A paz, como a alma,  é divina, e grande alma é aquela que não nega sua verdade para agradar ao mundo, ou a uns poucos.
            O mundo, na verdade, é um grande desafio. Estamos a cada segundo sendo desafiados a assumir, ou negar, aquilo que somos, dependendo do quão conveniente seja para nós uma ou outra posição. O medo mascara nossas digitais. O temor do conflito com o mundo, ou com o outro, pode até nos livrar de muitos dissabores, mas não nos livrará da batalha com nós mesmos. E esta talvez seja a pior. “O que me assusta não são as ações e os gritos das pessoas más, mas a indiferença e o silêncio das pessoas boas,” dizia Martin Luther King. O grande dilema, ou a grande dor, é constatar que, o que silenciamos para o mundo, não conseguimos silenciar para nós.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012


                GAIA: DE GOETH A LOVELOCK
Ana Trajano                 

Com a intensidade das desordens climáticas, muito se tem falado sobre a Hipótese Gaia na busca de explicações para o que está acontecendo. Poucos sabem, entretanto, que muito antes de Lovelock elaborar  sua hipótese, segundo a qual a Terra é um organismo vivo que sente e reage às agressões, Goeth, no século XVIII, já imaginava  o Universo dessa forma. E ia mais além: via a natureza como uma totalidade orgânica em profunda conexão com o mundo espiritual, e não apenas como um mecanismo frio e sem alma, constituído apenas por matéria em movimento.
Na Primeira Parte do Fausto (Noite), quando o sábio, de mesmo nome, invoca o Espírito da Terra, e é surpreendido por ele, Goeth dá um exemplo disso: descreve este espírito como um princípio que permeia, ou impregna, o organismo do Universo. Vejamos os versos:

“Abaixo, acima bóio,
Aqui e ali vagueio!
A morte, o nascer,
Um pélago eterno,
Tecido cambiante,
Brilhante viver”.

Assim como Lovelock, cuja teoria não foi bem vista, Goeth também foi menosprezado pela comunidade científica da época. Consequentemente, suas pesquisas em vários ramos (ótica, anatomia, botânica, etc.) não tiveram a atenção que merecia. E o genial Goeth tornou-se mais conhecido nas artes como poeta e escritor do que como o cientista que foi. Deste, poucos conhecem. Na verdade, Goeth dava mais ênfase às suas pesquisas do que à sua produção literária.
O homem que deu vida ao Fausto, utilizou-se da literatura para transmitir sua cosmovisão e todo saber que detinha em ramos do conhecimento nos quais passeou com maestria. As primeiras páginas de sua principal obra, mostra claramente esse modo de enxergar a natureza, que se opunha à forma mecanicista como a ciência a via- e continua vendo. Goeth a descreve como uma teia de relações, onde tudo está conectado: se mexemos em um fio, o conjunto será atingido. Ao contemplar o signo do macrocosmo, Fausto afirma:

 “Como tudo no todo vai fundir-se
E atuam e vivem uns nos outros
Os seres!...”

Mas nem tudo está perdido.Em “Das Gottliche (O Divino), ode escrita pelo poeta em 1782, ele dá a receita para uma boa convivência com a natureza, lembrando-nos que  na constituição física somos iguais aos demais seres, pois somos feitos de matéria. O que nos diferencia é que somos seres espirituais. Concluímos que nesses dias tão difíceis, para nós e para a mãe Gaia, o que necessitamos é conectarmos nosso espírito ao Espírito do Universo.

“Que o homem seja nobre
Prestativo e bom!
Pois só isso
O diferencia
De todos os seres
Que conhecemos”.

Para nós, humanos, só nos resta a saída: ou sermos “prestativos e bons”,  fazendo jus à nossa privilegiada posição, no topo da árvore da vida, ou continuarmos agindo dentro desse enorme organismo vivo que é a Terra, como células cancerosas, com grande poder de malignidade.


                        O CORAÇÃO DA TERRA

Outro indicativo de que a Terra é um organismo vivo em profunda conexão com todos os seres é a Ressonância Shumann. Embora muitos não acreditem e vejam com ceticismo sua influência sobre o meio-ambiente e os seres, ela é uma realidade física e está incluída entre as constantes da natureza. Mas o que é e como funciona essa ressonância? Em resumo é um campo eletromagnético existente na Terra, descoberto em 1952 pelo físico alemão W.O Shumann. Esse campo se estende do solo até a parte inferior da Ionosfera que em distância corresponde a aproximadamente 100 quilômetros acima de nós.
Shumann constatou que esse campo eletromagnético funciona com uma ressonância (batidas, pulsações) mais ou menos constante de 7,83 hertz por segundo. Verificou-se depois que o cérebro humano e os vertebrados funcionam nessa mesma freqüência. Fora dela as pessoas adoecem. É o que acontece, por exemplo, com os astronautas. Sempre que em suas viagens espaciais eles saiam dessa frequência, adoeciam. Submetidos a um Simulador Shumann, recuperavam a saúde.
Na realidade, a Ressonância Shumann funciona como um marcapasso, responsável pelo equilíbrio da biosfera. O problema é que a partir da década de 80, e de forma mais acentuada, nos anos 90, essa ressonância aumentou de 7,83 hertz para 11 e 13 hertz. Isto é, o coração da Terra disparou. Segundo Leonardo Boff, em artigo publicado no Jornal do Brasil, em 2004, “coincidentemente desequilíbrios ecológicos se fizeram sentir: perturbações climáticas, maior atividade dos vulcões, crescimento de tensões e conflitos no mundo, e aumento geral de comportamentos desviantes nas pessoas”. Outra conseqüência é a aceleração do tempo com redução da jornada de 24 horas apenas 16.
            

sexta-feira, 4 de maio de 2012


Mas, afinal, o que é e onde está a Paz?

Ana Trajano                                             

 A paz nasce também da consciência de unidade, de nós com o todo, isto é, com o mundo que nos rodeia, e, sobretudo, com o Criador. Perdemos a paz quando perdemos essa consciência, pois nos tornamos seres fragmentados, esquecidos de quem somos: um com Deus e com a natureza. A vida levada a negá-los e a destrui-los em nós, vai se tornando conflituosa, vazia, sem paz e insuportável. Negar essa unidade é perder a nossa essência, a face que verdadeiramente nos identifica e revela. Negá-la é optar pelo conflito. 
 Paz é o estado de espírito que se alcança quando vencemos em nós toda forma de conflito. O mundo pode estar em guerra e eu, ou você, estar em paz, mas o mundo pode estar em paz e eu, ou você, estar em guerra, pois a forma de violência mais difícil de ser vencida é a subjetiva, é a que está incrustrada nos nossos pensamentos, nos "pré-conceitos" que formamos do outro, nos nossos medos, nos nossos desejos vis, frutos quase sempre da nossa ganância, da nossa necessidade de discriminar, de excluir, de explorar seus semelhantes e a natureza para tirar proveito. E quem age assim não está em unidade com o seu Criador
Todos os pacificadores precisaram antes se desnudar de suas violências internas, extirpá-las do seu coração: a violência dos atos, a violência dos pensamentos, a violência dos julgamentos.  Agnes Gonxha  Bojaxhi não teria sido  Madre Teresa de Calcutá se tivesse dentro de si  alguma forma de preconceito,  a começar pelo religioso (uma católica na terra dos hindus e muçulmanos), se dentro de si houvesse algum medo ou discriminação contra as pessoas a quem dedicou a vida, fez do serviço a elas a sua razão de ser: mendigos, portadores de todo tipo de deficiência, leprosos , tuberculosos, etc. E livre de preconceito foi muito corajosa para lutar contra o dos outros, porque liberta  de si  já havia conquistado a paz. Só conseguimos transmitir paz quando estamos em paz. Por isso a paz é tão difícil. Quem de nós não luta nesse instante consigo mesmo?
A grande batalha que travamos na vida é contra nós próprios, e o nosso maior desejo é encontrar a paz, a quem certamente só chegaremos quando acabarmos com a nossa fragmentação, a diversidade que existe em nós. Dizia Sathya Sai Baba que não somos apenas um, mas  três: aquele que pensamos que somos,  aquele que os outros pensam que somos e aquele que realmente somos. Quanta verdade! Nisto consiste a nossa fragmentação, e o desvio de nós próprios, pois o que pensamos que somos e o que os outros pensam que somos camuflam o nosso verdadeiro eu. Como conhecer a paz se eu não conheço nem a mim? Conhece-te a ti mesmo e conhecerás Deus, fonte de toda paz.
O texto a seguir- a Visão de Enoch, do Evangelho Essênio da Moisés-, lembra-nos que só quando desenvolvemos em nós a consciência de unicidade com o todo alcançamos a paz, pois neste todo reconhecemos Deus e re-conhecemos a nós mesmos. Afinal, Deus está sempre a nos dizer: “Por que temer se eu estou aqui?”


Serena-te e reconhece, Sou Deus

(Evangelho Essênio de Moisés - Visão de Enoch)



Galáxia Átomos pela Paz

Te falo. Serena-te, reconhece que Sou Deus. 
Te falei quando nasceu. Serena-te, sou Deus. 
Te falei em sua primeira contemplação. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falei em tua primeira palavra. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falei em teu primeiro pensamento. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falei em teu primeiro amor. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falei em teu primeiro cântico. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através do pasto das pradarias. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através das árvores dos bosques. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através dos vales e das colinas. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através da montanha sagrada. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através da chuva e da neve. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através das ondas do mar. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através da umidade da manhã. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através da paz do entardecer. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através do fulgor do sol. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através das estrelas brilhantes. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através das nuvens e das tormentas. Serena-te e reconhece, sou Deus. Te falo através do trono e do relâmpago. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através do arco-íris misterioso. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falarei quando estiver só. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falarei através da sabedoria dos antigos. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falarei quando haja visto a meus anjos. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falarei por toda a Eternidade. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 


                

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Por uma audiência ética


Ana Trajano

Há quatro semanas venho expondo neste blog o problema da violência midiática e suas consequências para a formação, sobretudo de crianças e adolescentes. Vimos no primeiro texto apresentado que a televisão é um poderoso instrumento ideológico nas mãos da elite dominante para manipulação das massas e, neste contexto, os programas vespertinos "policiais" trazem consigo forte conotação ideológica que expõe a relação entre classes, segundo especialistas citados. (Ver texto “Violência midiática expõe relação entre classes.”


Mostramos que a exploração exagerada da violência tem amparo na inexistência de legislação específica que regule a televisão brasileira. E, no terceiro texto da série, apresentamos as principais teorias que explicam a violência, suas causas e consequências. Diante de tudo aqui exposto fica a conclusão: a violência só tem espaço na mídia porque damos audiência a ela. Não sabemos por qual motivo o sangue que circula nas veias do homem e lhe dá vida, parece atrai-lo tanto quando derramado, extinguindo ou comprometendo a vida de outro ser. Como se aquilo que não é visível ( a vida em sua essência) pudesse finalmente ser observado.


Não é à toa que Roma atraía a população com o sangue dos lutadores. Enquanto este era derramado, diante de plateias de milhares de pessoas, o império mantinha sua glória. Podemos dizer que era catártico para as massas. Para estas, a violência dos governantes, ou do sistema de governo romano, era esquecida na violência que Roma apresentava como espetáculo. O império acabou, mas o gosto pelo “divertimento” macabro continuou, e a televisão, infelizmente, substitui o palco dos gladiadores, com tanta morte e sangue apresentados.


Por trás daquela coisa horrenda estava a ideologia romana de dominação, assim como por trás do que é apresentado por nossa mídia, ou boa parte dela, está a ideologia de dominação de nossa elite.


Se a sociedade está violenta, a televisão não deve omitir-se de apresentar isto, cumprindo assim seu papel informativo. Mas entre “informar” ou agir como Roma,  há uma grande diferença. E o que se vê na televisão brasileira hoje é um verdadeiro patrocínio da violência, da qual ela, assim como um vampiro, tira parte do que lhe sustenta porque é audiência garantida.


A violência saiu do âmbito dos programas vespertinos policiais para ganhar as novelas que o brasileiro consome como feijão com arroz. Aquela que não tiver um assassino em potencial, de preferência engraçado, no estilo Tereza Cristina, parece correr o risco de não fazer sucesso. E a morte vai, cada vez mais, se tornando algo banal e engraçado como os personagens da televisão.


Mas, como afirmei acima, a violência na mídia só existe por dois motivos: porque tem quem a veja e pela falta de legislação que regule a TV. Se o Estado até agora fez vistas grossas, deixando de fazer a sua parte, cabe a nós fazer a nossa. E podemos começar estabelecendo uma audiência ética, treinando, ou “educando nosso olhar”, para vermos, e permitir que nossos filhos vejam, apenas programas que sejam proveitosos, do ponto de vista educativo, para o seu crescimento intelectual.


Audiência ética significa não apenas deixarmos de ver os programas com conteúdos violentos, mas também nos recusarmos a comprar produtos de empresas que patrocinem tais programas, pois são os patrocinadores que lhe garantem vida.





  PAZ NAS REDES Ana Trajano As redes sociais transformaram as nossas vidas, é fato - tanto que já não nos imaginamos sem elas. Porém, també...